Passou um mês e continuava chateado com os seus pais, especialmente com o seu pai, visto que tudo se passou com ele. Durante aquele tempo, passou o mínimo de tempo possível em casa, mesmo estando de férias. O pior de tudo, é que não conseguia encarar ainda o resto da sua família. Será que todos sabiam menos ele e fez papel de parvo? Será que ainda estão todos na ignorância como ele estava? E se sabem, como é que os ia encarar agora, quando eles sabiam o que o seu pai tinha feito e sabiam que ele não sabia de nada! Portanto, para além de evitar os seus pais, evitou toda a gente. Chegou mesmo a arranjar um pequeno part-time, que lhe rendeu algum dinheiro, mas foi uma coisa passageira, e já tinha terminado. Por isso, e por outros tantos motivos, passou muito boa parte do seu tempo com Auri.
Estava a agarrar o telemóvel quando recebeu uma mensagem dela. Estava a convidá-lo para ir ao cinema naquela noite. Obviamente que aceitou. Já não iam ao cinema há algum tempo e a ideia de estar com Auri, de preferência sozinhos, no escuro do cinema, agradava-lhe. Entretanto, ainda tinha imenso tempo até à hora combinada. Mesmo que chegasse um pouco mais cedo, para jantar junto ao cinema. Fez a coisa mais logica que poderia fazer para passar o tempo. Pegou no pc e jogou um jogo online. Nem deu pelo tempo passar, quando olhou para as horas eram quase sete da tarde. Saiu do jogo, por mais que os colegas de equipa lhe pedissem para não o fazer, provavelmente iriam falhar na missão por causa da sua ausência, desligou o pc, que ficou a fazer actualizações e foi tomar um banho rápido. Depois de se secar, quase por completo, vestiu-se à pressa, por estranho que pareça, vestiu umas calças, algo que já não fazia há algum tempo, devido ao calor, mas parecia que naquela noite ia estar fresco.
Menos de cinco minutos depois, estava na paragem de autocarro. Ainda bem que passavam autocarros quase de dez em dez minutos. Apanhou o seguinte e seguiu até ao forum. Depois, foi jantar, mesmo sendo um pouco cedo para o fazer, pois se esperasse até horas que para ele fossem decentes, iria estar muito mais caótico. Assim, jantou calmamente, comento metade de uma pizza. Ainda lhe sobrou tempo para ver os filmes em exibição e comprar os bilhetes com alguma antecedência, antes que apanhasse uma fila enorme. Estava concentrado a olhar para o cartaz dos filmes que iriam entrar em exibição quando lhe tocaram no ombro. Era Ela, conhecia bem o seu toque e foi-lhe impossível não sorrir. Virou-se e ficou deslumbrado com a sua beleza.
- Uau - Não é que ela não estivesse sempre bonita, mas estava ainda mais, parecia ficar cada vez mais bela, de cada vez que a via.
Beijou-a e abraçaram-se. Por momentos esqueceu de que iam para o cinema a seguir. Aliás, esqueceu-se de tudo o que estava a sua volta, do passado ou futuro, apenas existia aquele momento, apenas existia ela e a sua vontade de a abraçar com força, sem que nunca lhe passasse sequer pela cabeça larga-la. Por momentos tudo ficou bem e nada mais importava. Mas um beijo não dura para sempre, mesmo que fique para sempre na memória.
- Compraste os bilhetes?
- Sim - respondeu retirando-os do bolso das calças.
Deram as mãos e foram até à sala do seu filme. Sentaram-se num lugar aconchegante, não ligando ao numero que estava nos seus bilhetes. A publicidade tinha acabado de começar quando desistiu de tentar resistir a Auri.
-Tu és insaciável - disse-lhe ela quando lhe beijou o pescoço calorosamente.
-Quero-te tanto, meu anjo - sussurrou-lhe ao ouvido.
Olharam-se nos olhos e percebeu que ele não era o único a querer. E, depois de fugir aos seus beijos, foi ela quem o beijou. As suas mãos começaram a agir por conta própria e enquanto ela tirava o casaco já estavam por baixo do seu vestido, junto às ancas. Beijou-a ainda mais. Não conseguia parar. Até que, subitamente....
- Se querem fazer essas poucas vergonhas, fiquem em casa! Se continuarem no marmelanço chamo o segurança, ao menos sejam discretos e não façam sons! - gritou um homem de umas filas mais abaixo. - Crianças pá! - completou enraivecido.
Pararam constrangidos. Auri até voltou a vestir o casaco. Aparentemente o filme já estava a começar. Nenhum dos dois tinha dado conta."Nós não moramos na mesma casa" pensou em dizer. Mas o homem tinha razão, aquele não era o local. O que lhe deu uma ideia interessante.
Viram o filme quase sem conversar, pelo menos até ao intervalo. Depois, novamente, não conseguiram resistir um ao outro, mas desta vez contiveram-se um pouco mais. O suficiente pelo menos. A segunda parte do filme foi mais interessante e já não se sentiam constrangidos, mesmo o homem continuando a olhar para trás de cinco em cinco minutos. Para dizer a verdade, embora ele pudesse ter um pouco de razão inicialmente, já o começava a irritar. Optou por não ligar, preferindo não estragar o encontro com a sua namorada por causa de um atrasado qualquer. Saíram do cinema quase à meia noite, portanto já não era possível comprar comida, ou o que quer que fosse, no forum, de forma que abandonaram o centro comercial e apanharam um autocarro. Resolveu acompanhar Auri literalmente até casa, visto que a hora já era tardia e nunca se sabia bem o que poderia acontecer numa noite de verão a uma rapariga sozinha.
- Alguma vez acampas-te? - Perguntou Hélio pelo caminho.
- Não... e tu?
- Também não... Mas gostava de o fazer...
- É, eu também... Nunca tive tempo ou oportunidade até agora...
- Queres ir acampar? Comigo?...
- Quando? - Respondeu ela com um sorriso.
- Não sei, amanhã? - Disse ele sorrindo também. Era bastante complicado não estar sempre a sorrir na presença dela.
- Não é um bocadinho de nada repentino?...
- Um pouco, mas pode ser depois de amanhã, não há problema! - Gracejou.
- Está bem.
O seu coração acelerou mais um pouco. Por este andar ia ficar com pressão alta. Não pensou que ela fosse dizer que sim, mas na verdade, porque não haveria? Ia ser fantástico.
Entretanto chegaram a casa de Auri. Como ela dissera antes de saírem do autocarro, era mesmo perto da paragem e não iria encontrar ninguém pelo caminho, mas preferiu prevenir de qualquer das formas, mesmo agora tendo de voltar para trás e tendo de esperar quase meia hora pelo próximo autocarro. Chegaram a porta, abraçaram-se, beijaram-se, perderam um pouco a noção do tempo e afastaram os seus corpos devagar, por mais que estes se atraíssem mutua e involuntariamente, até que ficaram apenas de mãos dadas.
- Até amanhã, Auri.
- Até amanhã...
- Não te esqueças do nosso acampamento... - disse começando a largar-lhe a mão e começando a fazer o caminho que acabaram de fazer.
- Hélio! - Chamou depois de dar dois passos.
- Sim - respondeu, virando-se automaticamente.
- Não queres entrar um pouco?...
Até.
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