segunda-feira, 21 de julho de 2014

Right person - part 15

Subitamente ouviu um grito que o fez saltar da cama. Auri, pensou de imediato. Saiu do seu quarto praticamente a correr, sem perder tempo sequer para acender a luz. Quando chegou ao quarto de hospedes Auri estava na cama, toda molhada no próprio suor. Parecia ter acordado de um pesadelo horrível. 
- Aurora, está tudo bem? - Nem sabia porque tinha colocado a pergunta daquela forma, é claro que não estava.
Não houve tempo para respostas, saiu da cama e foi até à casa de banho para mais um vómito ensanguentado. Hélio mal teve tempo de lhe segurar o cabelo e de a apoiar enquanto vomitava. Estava imensamente preocupado, e se os comprimidos não estivessem a fazer o efeito que deveriam? Mas claro, não o iria demonstrar, não queria que ela ficasse também assustada. Já bastava estar a passar por tudo aquilo. A sua mãe chegou logo em seguida. 
- Aurora, querida? Como estás? - dirigindo-se para o filho. - Vai chamar a ambulância. 
- Não - respondeu com uma voz frágil - Disseram no hospital que isto iria acontecer, pelo menos mais uma ou duas vezes. 
- Tens a certeza? Se for preciso nós levamos-te. 
- Não, obrigada. Vou tomar mais um comprimido e beber um chá para acalmar o estômago. 
- Como queiras, O Hélio vai fazer-te o chá. Toma um banho, estás completamente encharcada, minha querida. 
- Obrigada Helena. 
A sua namorada dirigiu-se novamente para a casa de banho para tomar um duche. Sabia que não era altura para ter aqueles pensamentos, mas por um mero segundo pensou em como seria bom ir com ela. Claro, só se permitiu a pensar nisso quando já descia as escadas para a cozinha. Aqueceu a água numa cafeteira eléctrica, despejou a agua a ferver para o bule que preparou e colocou os saquinhos. Normalmente faria um chá com ervas, mas àquela hora não tinha muita paciência. Colocou o bule num tabuleiro, duas chávenas e bolachas e subiu. Só esperava que tivesse sido lento o suficiente para que Auri já estivesse vestida e rápido o suficiente para que ela não tivesse adormecido ainda. Por sorte, ou não, teve um timing perfeito. Entrou no quarto e ela estava a limpar o cabelo com a toalha. Ela era realmente bonita. Linda até. Mesmo notando-se que estava debilitada e cansada. Colocou o tabuleiro entre ambos e começou a servir o chá nas chávenas. 
- Hélio, obrigada por tudo - disse abraçando-o,assim que ele pousou a primeira chávena.
- Eu vou ficar aqui contigo, para me certificar de que ficas bem - disse servindo a segunda chávena. 
- Não precisas ficar, eu já estou bem.
- Não quero ouvir nada. Eu vou ficar na poltrona que é bastante confortável. 
- Nem pensar. Podes ficar aqui comigo, na cama. Eu não me importo. 
Sorriu, queria ter evitado sorrir tão abertamente, mas seria impossível não o fazer. Terminaram o chá, ele quase de uma vez, pois já começava a esfriar. Deu-lhe um longo beijo na testa e deitaram-se. Abraçou-a com força enquanto ela deitou a cabeça no seu peito. Amava mesmo aquela rapariga. 
Adormeceram mais depressa do que conseguiram dar conta. 

************

Passou uma semana desde que dormiram juntos. Finalmente Auri estava de boa saude, os vómitos e as dores pararam, por isso, deixou de existir motivo para que ela continuasse em casa de Hélio, por mais que este quisesse que ela ficasse. Não queria nada que ela fosse embora. Nada mesmo. E ela estava naquele momento a fazer as malas. Tinha gostado imenso que ela ali tivesse passado uns dias, mesmo que tivesse sido por um dos piores motivos que se pudesse esperar. Foi beber água. Não é que estivesse com muita sede, mas não sabia o que haveria de fazer. Não lhe apetecia fazer nada.
Estava a ser estupido e infantil, claro. Não era por ela sair de sua casa que deixaria de a ver. Tinha de ver as coisas pelo lado positivo. Ela já estava bem e já só faltava uma semana para terminarem as aulas. Podiam aproveitar bastante bem o tempo depois disso. Resolveu ir ter com ela, mesmo ela estando a preparar as suas coisas. Encaminhou-se até ao quarto de hóspedes e parou quando ouviu uma conversa lá dentro.
- ... Helena sabia. Ao Hélio nunca fomos capazes de dizer. Nunca pensei que o destino fosse de tal maneira macabro ao ponto de te trazer para a minha vida desta forma - estava o seu pai a dizer.
- Nunca foram capazes de dizer o quê? - Perguntou irritado abrindo a porta de rompante.
Detestava que lhe escondessem as coisas, especialmente coisas importantes. E aquilo parecia ser uma coisa bastante importante. A sua namorada parecia chocada ao mesmo tempo que enraivecida. O seu pai parecia quase tão abatido como quando estava preso.
- Hélio... Lamento imenso... Só te queríamos proteger...
- Proteger de quê? O que é que não me contaram? O que é que se passou?!
Nenhum dos dois parecia querer responder. Na verdade, Auri estava quase à beira das lágrimas. Não fazia ideia do que se passava e isso começava a irritá-lo verdadeiramente.
- Esta não é a melhor altura para falarmos do assunto, provavelmente...
- Provavelmente o quê pai? Não existe uma melhor altura para nada! Agora tens de contar.
Sentou-se na cadeira e esperou que Hélio se sentasse tambem.Sentou-se ao lado de Auri, na sua cama, que estava apenas chocada com tudo aquilo. Mesmo depois de se sentar, teve de esperar e estava prestes a começar a falar quando o seu pai começou.
- Há três anos... Quando tive todos aqueles problemas e fui preso...
- Sim, por causa do acidente e das mercadorias roubadas...
- Não... nós mentimos-te Hélio... As mercadorias que eu transportava não eram roubadas, não foi por isso que eu fui preso e tive de fazer serviço comunitário...
- Então? - Subitamente uma enorme raiva apoderou-se dele e apertou a mão da sua namorada com mais força.
- A verdade é que eu estava atrasado. Ia um pouco com velocidade a mais para a carga excessiva que trazia lá atrás. Estava a chover... Foi tudo tão rápido...!
Agora era o seu pai que parecia que ia chorar. Entretanto Aurora já estava a chorar abraçada ao seu braço. Não percebia. Não entendia porque lhe mentiram e não entendia porque isso estava relacionado com a sua namorada.
- O que é que foi rápido! Conta de uma vez, estou farto de fazer figura de ignorante!
- Despistei-me, tentei travar, mas apenas fez com que o camião deslizasse mais! Ia bater contra um carro que estava à minha frente! Olhei, quase como se o tempo parasse, eu vi duas crianças a espreitar para trás no banco do carro e desviei-me para o outro lado. Com toda a força guinei o volante, bati no separador da estrada, rompi-o até ao outro lado e acertei numa mota que ia a passar...
-Numa mota... - começava a entender aquelas palavras... Sabia que tinha existido um acidente, mas não fazia ideia que existia mais alguém envolvido. - Quem é que estava nessa mota!?
- O meu irmão! - disse Auri com as lagrimas a correr em bica.
O seu coração parou um segundo.
- E a Aurora também estava na mota... Foi um milagre ter sofrido tão poucos danos... físicos pelo menos.
- O que é que aconteceu ao irmão dela? Ele não...?
Não queria acreditar. Não podia ser verdade. O seu pai não podia ter morto uma pessoa, especialmente não o irmão da sua namorada. Não podia!
- Não sobreviveu... - Respondeu o pai com as lágrimas a começar a correr.
- E acharam que isso não era importante o suficiente para me contarem? - Explodiu - Como é que me podem ter escondido uma coisa destas?! - Levantou-se e começou a andar às voltas - como é que?..
- Desculpa Hélio... Desculpem os dois.
- Achas que passados três anos é um pedido de desculpas que vai fazer diferença!? Sinceramente! Por que é que não me contaram!? Nem consigo olhar para ti pai!
Pegou na mão de Auri e sairam ambos do quarto. A sua mãe estava na cozinha e veio à porta quando sairam de casa. Não conseguia continuar ali. Não podia.Apanharam um autocarro que estava quase vazio e sairam umas paragens mais à frente. Só pararam quando chegaram ao parque.
- Desculpa Auri... - disse abraçando-a.



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