Inspirou
novamente o fumo daquele cigarro tóxico. Nunca tinha feito aquilo sozinho, mas
como sempre lhe diziam, havia uma primeira vez para tudo. Agora era assim que
as coisas iriam ser. Era assim que a sua vida ia ser. Os pensamentos começaram
a ficar muito lentos, muito rápidos, objetivos e pouco lógicos.
Sentou-se
na base daquele pinheiro que tanto viu. Não ia ali sozinho há anos,
especialmente à noite. Continuou a respirar aquele fumo alucinogénio. Teve de
reacender o cigarro duas vezes antes de o conseguir matar. Era o último de
qualquer das formas, o ultimo que tinha e o último da sua vida. Levantou-se a
custo e arrancou as luvas sem dedos das mãos, para logo as atirar para cima da
mesa de madeira, aquela mesa que “eles” construíram. Quando se voltou a virar
para o pinheiro, podia ver o quanto cresceu pelas antigas marcas existentes no
seu tronco. Lembrava-se delas bem mais em baixo. Não que isso importasse.
Retirou também o casaco de cabedal preto. Podia-o ter feito quando tirara as
luvas, mas sentia-se um pouco tonto para pensar com clareza.
Baixou-se
e começou a escavar com as mãos, por entre as raízes da árvore. Ainda bem que o
luar era forte, de outra forma nunca encontraria o que procurava. Por baixo de
uma raiz, bem mais grossa do que se recordava, encontrou por fim, a caixa de
metal, a começar a ficar com alguns pontos de ferrugem por conta da humidade da
terra. Aquela terra que tudo reclama. Só depois de se sentar à mesa por alguns
minutos teve coragem de abrir a pequena caixa. Mesmo com aquelas toxinas no seu
sistema, que teoricamente o deveriam deixar mais relaxado, só com muito custo a
conseguiu abrir. Sabia o que lá tinha colocado dentro. O que tinham colocado lá
dentro. Fora ideia dela deixar ali a caixa e tudo o que ela simbolizava. Achou engraçado
na altura, achou mais que engraçado, uma das coisas mais românticas que
poderiam fazer provavelmente, embora tenham feito tantas outras, só nunca
pensou que tivesse de ir ali buscar a caixa sozinho. Nunca tinha pensado nisso.
Mas não poderia deixá-la ali na terra. Já lhe bastava tudo o que a terra lhe
tinha reclamado.
Os
dois fios de prata unidos por uma aliança do mesmo material, grossa e pesada,
repousavam incólumes no interior, assim como o bilhete assinado pelos dois.
“Juntos
para sempre
13 de
Janeiro de 2002”
Colocou
os dois fios, prova da sua união eterna, unidos pela aliança de prata que ambos
descobriram, ao pescoço, e olhou para os estranhos entalhes no anel, nunca
chegaram a descobrir o que significavam. Não que agora fizesse qualquer diferença.
Nada mais importava. Ia vaguear sozinho naquela Terra arruinada e vazia.
Colocou as luvas, vestiu o casaco, pegou na caixa com o seu último tesouro e
voltou para o carro. Não aguentava mais aquele lugar. Não conseguia aguentar
mais aquelas recordações.
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