segunda-feira, 23 de junho de 2014

Último cigarro

Inspirou novamente o fumo daquele cigarro tóxico. Nunca tinha feito aquilo sozinho, mas como sempre lhe diziam, havia uma primeira vez para tudo. Agora era assim que as coisas iriam ser. Era assim que a sua vida ia ser. Os pensamentos começaram a ficar muito lentos, muito rápidos, objetivos e pouco lógicos.
Sentou-se na base daquele pinheiro que tanto viu. Não ia ali sozinho há anos, especialmente à noite. Continuou a respirar aquele fumo alucinogénio. Teve de reacender o cigarro duas vezes antes de o conseguir matar. Era o último de qualquer das formas, o ultimo que tinha e o último da sua vida. Levantou-se a custo e arrancou as luvas sem dedos das mãos, para logo as atirar para cima da mesa de madeira, aquela mesa que “eles” construíram. Quando se voltou a virar para o pinheiro, podia ver o quanto cresceu pelas antigas marcas existentes no seu tronco. Lembrava-se delas bem mais em baixo. Não que isso importasse. Retirou também o casaco de cabedal preto. Podia-o ter feito quando tirara as luvas, mas sentia-se um pouco tonto para pensar com clareza.
Baixou-se e começou a escavar com as mãos, por entre as raízes da árvore. Ainda bem que o luar era forte, de outra forma nunca encontraria o que procurava. Por baixo de uma raiz, bem mais grossa do que se recordava, encontrou por fim, a caixa de metal, a começar a ficar com alguns pontos de ferrugem por conta da humidade da terra. Aquela terra que tudo reclama. Só depois de se sentar à mesa por alguns minutos teve coragem de abrir a pequena caixa. Mesmo com aquelas toxinas no seu sistema, que teoricamente o deveriam deixar mais relaxado, só com muito custo a conseguiu abrir. Sabia o que lá tinha colocado dentro. O que tinham colocado lá dentro. Fora ideia dela deixar ali a caixa e tudo o que ela simbolizava. Achou engraçado na altura, achou mais que engraçado, uma das coisas mais românticas que poderiam fazer provavelmente, embora tenham feito tantas outras, só nunca pensou que tivesse de ir ali buscar a caixa sozinho. Nunca tinha pensado nisso. Mas não poderia deixá-la ali na terra. Já lhe bastava tudo o que a terra lhe tinha reclamado.
Os dois fios de prata unidos por uma aliança do mesmo material, grossa e pesada, repousavam incólumes no interior, assim como o bilhete assinado pelos dois.

“Juntos para sempre
13 de Janeiro de 2002”


Colocou os dois fios, prova da sua união eterna, unidos pela aliança de prata que ambos descobriram, ao pescoço, e olhou para os estranhos entalhes no anel, nunca chegaram a descobrir o que significavam. Não que agora fizesse qualquer diferença. Nada mais importava. Ia vaguear sozinho naquela Terra arruinada e vazia. Colocou as luvas, vestiu o casaco, pegou na caixa com o seu último tesouro e voltou para o carro. Não aguentava mais aquele lugar. Não conseguia aguentar mais aquelas recordações. 

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