Os dias foram passando e não conseguia, literalmente,
parar de pensar nela, noite e dia. Continuaram a conversar, claro, e viram-se
na escola algumas vezes, e estiveram mesmo, de vez em quando, juntos, mas nunca
tempo o suficiente. Parecia que aquelas semanas iam ser complicadas. Talvez por
estarem na fase dos testes, a ultima fase de testes de todas. Ainda queria ver
como iriam ser as suas notas, achava que os seus pais não iriam gostar
particularmente, mas também, não tinham nada que gostar ou deixar de gostar, a
responsabilidade era sua, as notas eram suas e a vida também. E a única coisa
que lhe interessava naquele momento era estar com Auri. Ia ter um teste dali a
pouco tempo, mas não conseguia olhar para os livros nem mais um minuto. Os seus
pais tinham saído e so voltariam na segunda-feira. Era impressionante o numero
de vezes que lhe deixavam a casa só para ele o fim-de-semana inteiro e nunca
tinha feito nada realmente para o aproveitar. Por vezes imaginava-se fazer uma
daquelas grandes festas que via os adolescentes fazerem nos filmes, mas na
verdade, só conseguia pensar em ter uma pessoa ali em casa com ele. Pegou no
telemóvel e escreveu.
– Queres vir a minha casa, ver um filme, Auri?
A resposta foi rápida a chegar, quase como se ela
estivesse à espera que lhe perguntasse algo.
– A tua casa? E os teus pais? – Na verdade, mesmo que
eles estivessem em casa, a presença de uma rapariga não seria um problema,
talvez apenas um pouco embaraçoso.
– Não te preocupes, não está cá ninguém –
Respondeu-lhe.
– Hum. Então a que horas?
Ponderou um pouco antes de responder. Não haveria
melhor hora.
– Agora J
– Até já.
Quase não acreditava que ela aceitara o seu pedido!
Especialmente de forma tão rápida. Agora que pensava nisso, nem sequer se tinha
lembrado que filme poderiam ver. Mas supunha que essa seria a menor das suas
preocupações. Ficou nervoso, e por momentos andou às voltas sem saber mesmo o
que fazer. Tinha de começar por algum lado, por isso, arrumar o seu quarto
estava no topo da lista. Não que estivesse muito desarrumado, mas a roupa que
por lá tinha espalhada tinha de desaparecer. Apanhou as peças perdidas e
colocou-as para lavar. Olhou para a secretária e achou melhor não lhe tocar.
Não havia nada a fazer em relação a ela, a menos que tivesse imensas horas e
paciência disponível. Fez a cama, olhou em volta, e finalmente já se parecia um
quarto minimamente apresentável, tirando o caixote do lixo que estava cheio de papéis,
algo de que tratou logo em seguida.
Começou a correr de um lado para o outro, tinha
imensas coisas para preparar, apenas parou para responder a uma mensagem de
auri que perguntava qual era a sua morada. Como se poderia ter esquecido de lhe
dizer onde morava?
Correu para o jardim, para o quarto dos pais, para o
seu quarto, para a cozinha, para o seu quarto novamente e para a casa de banho.
Tinha acabado de tomar um banho rápido e de se vestir quando viu Auri ao longe
pela janela. Deixou que ela o visse e correu para a porta. Parecia um miúdo de
tao nervoso que estava. Estava extremamente ansioso por a ver, por lhe tocar e
essencialmente por apenas estar com ela, sem mais ninguém. Voltou a correr para
trás antes de abrir a porta, ainda lhe faltava algo. Aquela sua cabeça parecia
sempre desordenada quando o assunto era ela. Por fim, abriu a porta e o seu
coração voltou a disparar. Lá estava ela, mesmo à sua frente. Não conseguiu
evitar o grande sorriso. Ela, embora parecesse feliz, estava um pouco pálida,
quase como se estivesse assustada com alguma coisa.
– Auri? Estás bem?
– Sim – respondeu de uma forma pouco convincente.
– Vamos entrar? – Questionou agarrando-a pela mão –
Estás com medo de entrar tontinha?
Assim que Auri fechou a porta não conseguiu resistir
mais. Abraçou-a e beijou-a ao que ela correspondeu e agarrou-se ao seu pescoço.
A partir desse momento não se conseguiu controlar mais. O desejo de a beijar,
de lhe tocar e acariciar era demasiado forte para que pudesse resistir.
Pegou-lhe nas pernas e entrelaçou-as na sua cintura e encostou-a suavemente à
parece, ainda no hall de entrada. Foi Auri quem terminou com toda aquela “fogosidade”,
se ela não o tivesse feito, ele também não iria ser capaz de o fazer.
– Acho que é melhor irmos ver o filme Hélio – disse
ofegante.
Pousou-a lenta e suavemente no chão, como se ela fosse
uma boneca de porcelana e se pudesse quebrar se fosse um pouco brusco. Não é
que achasse que ela fosse frágil ou algo do género, apenas não queria nada que
ela se pudesse se alguma forma magoar.
– Sim! – Expirou para se tentar recompor – Vamos lá,
mas vou ter de te vendar os olhos!
– Porquê? – Perguntou surpreendida ao olhar para a
venda na sua mão.
– Surpresa – Respondeu ao colocar-lha com cuidado.
Encaminhou-a com cuidado para o seu quarto. Seguiu a
frente dela e literalmente teve de lhe retirar alguns obstáculos do caminho
para que não tropeçasse. Algo que incluiu um brinquedo do seu gato de
estimação. Chegaram à porta e teve de lhe deixar a mão por um segundo, algo que
na verdade não queria fazer, mas tinha de ser para que pudesse fechar a janela
e a surpresa surtisse o efeito desejado. Acendeu as velas e deixou-a retirar a
venda.
Mesmo com a fraca iluminação, apenas providenciada
pelas dezenas de velas acesas no seu quarto, conseguiu ver a sua cara de surpresa.
Demorou uns segundos até que ela se fosse juntar a ele, na manta no chão,
rodeado de almofadas e pétalas de rosa. Quando lá chegou e se aninhou junto a
ele, beijou-o com ternura e abraçou-o com ainda mais afeto que antes. Soube
nesse momento que tudo valia a pena. Apenas por aquele momento, nada mais
importava no mundo.
– Obrigada – proferiu Auri baixinho.
– Obrigado porquê tontinha?
– Por… tudo isto…
– Não tens de me agradecer por nada Auri. Faço isto
tudo porque quero. Porque te quero a ti.
E beijaram-se novamente. Abraçaram-se e ficaram ali.
Apenas agarrados um ao outro, como se estivessem em mar alto e fossem a única boia
salva vidas que existisse. Não a queria largar, nem para carregar no “play” do
seu computador, nem para que comessem o gelado que provavelmente iria começar a
derreter. Só a queria a ela.
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