Chegou a casa já de noite. Quase que tinha de dar
explicações aos seus pais, mas escapou-se por um triz. Tinha-se separado de
Auri há já algumas horas, mas não lhe apetecia fechar-se em casa, por isso
acabou por deambular pela rua até à hora de jantar. Jantou rapidamente e
fechou-se no quarto. Não é que não adorasse os seus pais, mas não queria compartilhar
o que se passara durante a sua tarde com eles, pelo menos não agora. Os pais
têm sempre muita tendência de fazer demasiadas perguntas em relação às relações
dos filhos. Portanto, assim que fechou a porta do quarto, ligou o pc e ligou à única
pessoa com quem se sentia realmente à vontade de falar sobre algo daquele
género, embora nunca o tivesse feito antes.
– Sim? É um bocadinho tarde, que me queres? –
Respondeu Lara do outro lado, em tom de brincadeira.
– Olá! Então, isso é forma de tratar o teu priminho
preferido? – Respondeu no mesmo tom.
– Obviamente. Quando ele me liga às onze da noite sem
pretexto.
– Vá, deixa de ser parva! Tenho uma coisa para te
contar.
– E isso alguma vez deixou de acontecer quando era eu
a pedir? – gracejou – Mas conta lá! Só desta vez!
– Lembras-te de eu te ter dito que não queria namorada
e de que não me incomodava com a nossa fama porque assim ao menos afastava
aquelas miúdas todas?
– Sim, lembro, como se tivesses dito há umas semanas
atrás.
– Pois, se calhar porque disse mesmo! Mas a questão é
que mudei de ideias.
– Então queres ser mesmo meu namorado primo? Sabes que
isso seria um pouco estranho… és como um irmão! – Gracejou novamente, não
conseguindo conter o riso.
– Tu és impossível!
– É de família! Mas vá, diz lá o que ias dizer.
– Conheci uma rapariga… E ela é simplesmente… Nem sei,
perfeita! Não consigo parar de pensar nela, desde que acordo até que me deito!
Até cheguei a pensar que poderia estar doente!
– Conheço pessoas que haveriam de dizer que estás, mas
não te preocupes, estás só apaixonado. Mas o que é que isso tem a ver com a
nossa fama?
– Bem… digamos que eu agora pretendo ter uma namorada…
– E ela sabe disso? É que convém que saiba… Eu sei que
ainda ninguém te explicou como isso funciona mas…
– Ai que parva, meu deus! É claro que sabe não é?
Estive com ela hoje.
– E então? Que aconteceu? – Pela primeira vez, não
estava a brincar e estava verdadeiramente interessada.
– Foi tipo, mágico. Eu beijei-a e ela beijou-me de
volta e foi como se tudo à nossa volta desaparecesse. Eu nunca me senti assim
antes Lara.
– Bem, estou a ver que é a sério. O que é que vocês
fizeram? Onde é que foram? Oh, estou tão contente por ti Hélio, a sério que
estou! Só espero que essa rapariga te mereça! Quem é ela?
– Wow… Tantas perguntas! Tem calma! A rapariga
chamasse Aurora e anda na nossa escola. Mudou-se para cá há pouco tempo.
Estivemos um pouco na esplanada do parque e depois fomos passear.
– Passear… sim, sei.
– Sim, passear! Foi um dos nossos primeiros encontros,
no que é que ficaste logo a pensar?
– Um dos? Então houveram outros?
– Sim houveram!
– Vês, mais razão me dás! Ainda por cima, não mos
contaste, por isso, é sinal que estás a tentar esconder alguma coisa não é?
– Só o pequeno pormenor de que no encontro anterior a
beijei e ela me deu um estalo por pensar que eu namorava contigo…
– OMG! Ela deu-te um estalo? Bem, ao menos tem coragem
a miúda!
– Sim, acho que sim.
– Mas vá, ainda não me disseste o que fizeram para
além de passear. – insistiu ela.
– Para além de passear, de eu ficar a olhar para ela e
de a beijar?
– Sim! Para além de tudo isso Hélio!
– Acho que não é algo que te possa contar priminha.
– Ai!! Se eu conto isso à tua mãe!
– Seria bonito sim. Mas tu também não sabes de nada e
não é nada que possas estar a imaginar!
– Sim sim, sei. Mas olha, falamos melhor amanhã… tenho
teste de manhã cedo e preciso mesmo de dormir. Sinto que estou a fazer direta
há uma semana!
– Está bem, depois falamos. Até amanhã.
– Até amanhã – despediu-se e desligou.
Ele também deveria ter teste num dos próximos dias,
mas o que sentia não o deixava dormir, por isso foi ver um episódio de uma
serie na tentativa de fazer com que o sono chegasse por fim ao seu quarto. Mas
o sms de Auri foi mais rápido. Finalmente ela chegara também a casa e colocara
o telemóvel a carregar. A série já não importava.
Até.
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