O dia seguinte custou a passar. Estranhamente quase não se falaram
desde que decidiram ir ao cinema, mas não tinha grande importância, a única
coisa que lhe importava é que ia estar com ela. Quando finalmente voltou a
anoitecer, uma noite morna e cheia de estrelas brilhantes que ninguém mais
parecia ver, não conseguia adormecer, por isso dedicou parte do seu tempo a ver
uma serie no computador. Claro está que acabou por se deitar tarde como de
costume, mas no dia seguinte podia dormir até tarde, afinal o cinema era apenas
de tarde.
Acordou e quase saltou da cama. Olhou para o telemóvel e viu que ainda
tinha imenso tempo. Tomou um banho e vestiu-se e em seguida tomou o pequeno-almoço,
que na verdade parecia ser mais um almoço pela sua hora tardia. Comeu
rapidamente, não porque precisasse, apenas por hábito e saiu de casa para
apanhar o autocarro. Só depois de chegar ao autocarro se lembrou que não tinham
sequer falado em almoçar, mas era óbvio que tinham de almoçar junto ao cinema.
– Onde vais almoçar? – Perguntou-lhe por mensagem.
Só quando estava quase a chegar ao fórum recebeu uma resposta.
– Não sei… Ao mac talvez. Porquê?
– Queres almoçar comigo? – o seu coração batia depressa quando fez a
pergunta. Tinha de ter cuidado, por este andar acabava por ter problemas de
tensão!
– Porque não?
E a ida ao cinema acabara de se transformar também num almoço. Estava
nervoso, mais do que deveria. Não ficava assim normalmente, nem mesmo quando
estava com outras raparigas, ou quando estivera em situações similares
anteriormente.
– Estou ao pé do mac… – disse ela passado poucos minutos.
Quase correu até chegar às escadas rolantes para o último piso do
fórum. Depois de colocar os pés nas escadas, respirou fundo e passou a mão pelo
cabelo. Não queria parecer que tinha corrido para ali chegar, embora quase o
tivesse feito. Chegou lá acima e dirigiu-se para o mcdonalds. A sua pulsação
disparou, outra vez, e todo o seu corpo paralisou. “wow” pensou. Auri estava
deslumbrante. O vestido azul com o casaco fino preto por cima, faziam-na pura e
simplesmente tornar-se encantadora, ainda mais. Nunca se sentira tão atraído
por uma rapariga. Para completar, aquelas sandálias com saltos altos assentavam
espetacularmente bem nos seus pés perfeitos, assim como na sua altura fofinha.
Mas continuavam a ser os seus cabelos encaracolados, os seus lábios
minuciosamente bem desenhados e os seus olhos sedutores que lhe faziam irromper
borboletas na barriga.
– Olá. Estás boa? – disse ao cumprimentá-la com dois beijos.
Tinha acabado de trocar mensagens com ela e a primeira coisa que lhe
perguntava era se estava boa! What the hell? Parecia que sempre que estava na
sua presença perdia a capacidade de pensar corretamente, agir ou mesmo falar.
– Sim e tu? – Respondeu de forma pouco natural.
– Também. Vamos almoçar?
Ela apenas acenou com a cabeça e foram para a fila. Esta era longa,
mas não mais que o normal àquela hora. Despacharam-se dali, furando pelo meio
da multidão para finalmente encontrarem uma mesa, da qual tiveram de tirar os
tabuleiros das pessoas que lá tinham estado antes. O almoço foi rápido, não tão
rápido quanto o pequeno-almoço, mas tão rápido quanto dois jovens poderiam comer
um hamburger. De certa forma foi quase constrangedor, estava quase a derreter
com a beleza dela e quase tinha medo de ser apanhado a olhá-la de boca aberta.
Minutos depois encaminharam-se para o cinema. Ela não o deixou pagar
os bilhetes os dois bilhetes, por isso comprou as pipocas para ambos. Era o mínimo
que poderia fazer, visto que foi ele que a convidou. Lembra-se que foram ver um
filme, mas já não se recordava do título, tinha uma vaga ideia de que seria uma
comédia. A verdade é que passara quase o filme inteiro a olhar para ela. Não o
fez de propósito, e tinha a certeza de que o filme era interessantíssimo,
apenas não conseguia desviar o olhar.
O filme terminou, as pipocas sobraram
e a vontade de estar com ela não passou. Quem lhe dera que pudessem ficar ali
para sempre. Estava na hora de se despedirem, até ao próximo encontro,
propositado ou casual.
– Tenho uma prenda para ti Auri.
– Uma prenda? Porquê?...
– Para que nunca te esqueças de mim…
– Não é como se me fosse esquecer, mas está bem.
– Fecha os olhos.
Ela fechou. Ele baixou-se e aproximou-se dela. Fechou também os olhos
quando os seus lábios se tocaram suavemente e se beijaram enquanto as suas mãos
lhe seguraram a cintura. Não sabia se o beijo durou um segundo ou um minuto,
mas subitamente ela afastou-o e bofeteou-o tão rapidamente que nem percebeu o
que tinha acontecido. Logo depois ela tinha desaparecido e Hélio ficara
sozinho, na entrada do cinema, com a cara vermelha e uma dúzia de pessoas a
olhar para ele.
Até
Até
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