Deitou-se tarde e levantou-se tarde. Tinha tido
pesadelos a noite inteira, ou pelo menos a parte em que dormiu. Aquilo já não
lhe acontecia há algum tempo. Saiu da cama lentamente e dirigiu-se à casa de
banho para um banho tépido para despertar. Só não era mesmo frio por causa da
última pneumonia, era melhor não arriscar mais. Quando voltou ao quarto
deparou-se com sms da Auri no seu telemóvel, no meio de alguns outros a que não
deu tanta atenção.
- Bom dia, H. Compreendo que não me queiras falar,
depois do que aconteceu, mas gostava muito de estar contigo, hoje à tarde para
podermos conversar.
Já tinha recebido a mensagem há quase duas horas, por
isso resolveu tomar o pequeno-almoço antes de responder, claro que ia demorando
tempo demais porque a sua mãe lhe ordenara que fosse despejar o lixo e passear
as cadelas, mas voltou ao quarto antes de fazer tudo isso, corria o risco de
responder tarde demais.
- Olá Auri. Nunca disse que não te queria voltar a
falar, tanto que fui eu quem disse para nos encontrarmos. Hoje à tarde
parece-me bem. E sim, precisamos mesmo de conversar.
Acabaram por decidir encontrar-se na esplanada do
parque da cidade, depois do último encontro não ousaram sequer pensar em voltar
ao fórum, evidentemente. Quando terminou tudo o que tinha a fazer e depois de
almoçar, trocou o fato de treino gasto e rasgado que usava em casa e nas
redondezas por uns calções de ganga e uma t-shirt azul escura e saiu.
Novamente, teve de apanhar um autocarro. Não via a hora de ter dinheiro para
comprar um carro.
Não sabia bem o que sentia em relação ao encontro com
Auri. Por um lado, estava tudo o que sentia por ela, tudo o que não conseguia
explicar e que lhe fazia o coração bater com força e as mãos tremer. Por outro
ela dera-lhe uma bofetada baseada num estupido boato. Ninguém lhe batia na cara
há anos e detestava isso. Não por uma questão física ou pela simples dor, mas
pelo orgulho em si, também isso não conseguia explicar. Aparentemente havia
muitas coisas que não conseguia explicar.
Para variar foi o primeiro a chegar. Pediu um café e
um copo com gelo. Estava imensamente calor, mas já não conseguia passar o dia
sem o seu café, especialmente tendo dormido tão pouco como ele dormira.
Esperava ao menos não ter olheiras, não reparara sequer. Agora era tarde demais
para se lembrar de uma coisa do género. Com o passar dos minutos foi ficando
ansioso. Não gostava de esperar no geral, mas era o facto de ir estar com Auri
que o deixava naquele estado.
Ela chegou pouco depois de ele ter terminado a sua
bebida. Estava com uns calções de ganga clara e um top azul-bebé. Assim que a
viu, ainda ao longe, foi como se fogo-de-artifício tivesse rebentado dentro de
si e insistisse em não sair. Quando ela se aproximou mais um pouco, levantou-se
e reparou nesse momento que ela se tinha magoado no queixo e parecia ter levado
pontos. Mesmo assim, quando ela se aproximou, não disse nada. Ela parecia que
ia chorar, com o queixo a tremer. Estava a partir-lhe o coração. E quando
finalmente abriu a boca, a sua voz parecia frágil.
- Hélio, eu amo-te.
E foi nesse momento que tudo pareceu congelar no ar.
Tudo desapareceu e nada mais importava. Que interessava se ela lhe tinha dado
um estalo por conta de um mal-entendido? No final de contas seria apenas uma
história engraçada. Arrancou os óculos de sol da cara sem pensar, olhou-a
profundamente nos olhos, aqueles olhos castanhos que estavam mais verdes do que
se lembrava de ver, aqueles olhos mágicos, enquanto avançava na sua direção,
quase derrubando a mesa que tinha à sua frente e beijou-a.
Por incrível que pareça, este beijo foi ainda mais
perfeito que o anterior. Nunca pensou que os lábios dela pudessem ser tão
suaves e tão doces. Estranhamente, apenas não os conseguia descrever. Apenas
sabia que nunca se iria fartar e não queria que aquele beijo terminasse nunca.
Mas terminou, e por um segundo quase esperou por uma bofetada, mas desta vez
Auri apenas o beijou novamente. Não a ia largar mais. Não se importava o que
acontecesse em seguida, desde que estivesse com ela.
Quando por fim se sentaram, estavam os dois sem folego
e as lágrimas dela escorriam pelos cantos dos olhos. Esperava que fossem de
felicidade.
- Desculpa outra vez Hélio, eu nunca te devia ter dado
aquela bofetada, mas eu pensei…
- Não faz mal, já passou – disse cortando-lhe a
palavra enquanto sorria – eu sei o que pensaste, nunca me tinha importado com
esse boato até agora, por isso suponho que a culpa também seja minha. Mas a
Lara é mesmo minha prima e na verdade somos como irmãos…
- Agora percebo isso, nunca me deveria ter deixado
levar.
Agarrou a mão dela antes de continuar a conversa. A
sua pele era ainda mais suave do que esperava, ela devia ser uma fada! Ou
melhor, um anjo!
- Não vamos mais falar sobre isso, já passou. Que
aconteceu com o teu queixo? – Perguntou tocando-lhe ao de leve na face. Quase
não resistia em lhe pregar outro beijo, mas não era altura para isso.
- Isto não foi nada…
- É alguma coisa… Tens pontos e tudo! Que se passou? –
Estava genuinamente a ficar preocupado. Cruzaram-se-lhe dezenas de ideias
diferentes pela cabeça, cada uma pior que a outra, mas nenhuma similar à real.
- Quando sai do fórum… depois do beijo e … pronto… sai
a correr, só que estava com saltos e cai e devo ter batido em algum sítio.
Não resistiu mais tempo. Beijou-a novamente, com a
esperança de lhe fazer esquecer toda a dor que pudesse ter sentido. Quando se
separaram, não sabia quanto tempo depois, foi ele quem pediu desculpa. Nem
queria pensar que ela se tinha magoado por sua causa.
- Foram só dois pontos Hélio, já tive pior, a sério,
não te preocupes. Para além disso, a culpa foi minha, não tua.
- Ainda assim… Não consigo não me preocupar. És muito
importante para mim Auri.
Sorriram e apertaram as mãos. Ele chamou o empregado
de mesa, pagou o café e saíram os dois, apenas para passear no parque. Pela
primeira vez em que literalmente nada mais importava para além deles.
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