Pegou no baralho de cartas e baralhou, pela milionésima vez naquela
noite. Fez quatro montes iguais, mais coisa menos coisa e tirou duas cartas dos
seus topos com os olhos fechados. Repetiu o processo até faltarem duas cartas. Virou-as
e lá estavam elas novamente. Dama de copas e Ás de espadas. Que raio quereria
aquilo dizer? Maldita a hora em que aprendera a tirar as cartas. Quem lhe dera
saber lê-las como o seu antigo mestre. Parecia simbolizar um coração partido,
mas nunca era assim tão simples.
Pegou noutro livro, mais antigo que o ultimo e folheou. Era provável que
não encontrasse nada. Aquele método não era usado em sitio algum portanto não haveriam
referencias aos seus resultados num livro, por mais antigo e poderoso que
fosse. Levantou-se e jogou o baralho para o meio das chamas da lareira. O que
quer que fosse que as cartas diziam sobre o futuro, não podia ser mudado de
qualquer das maneiras. Foi até à casa de banho e lavou a cara. Voltou para a
sala e sentou-se naquela grande poltrona com caveiras a ler o jornal e a beber
mais um copo de whiskey.
Novamente, não encontrou nenhum trabalho que o pudesse satisfazer
monetariamente. Há anos que não vivia dos seus conhecimentos de previsão, não é
que errasse, mas no seu último trabalho cometera um erro que nunca mais se iria
deixar voltar a cometer. E por causa disso, uma família inteira fora
assassinada. Por sua causa. Não voltaria a tirar as cartas para ninguém.
Sentiu um fio gelado no pescoço e percebeu imediatamente do que se
tratava. Bebeu mais um gole da sua bebida, quase aliviado por finalmente o
terem encontrado.
– Com os cumprimentos da aranha ruiva – ouviu sussurrar no momento em
que a adaga foi puxada firmemente.
Sempre pensara que seria indolor e rápido, mas ainda teve tempo de
sentir o sangue quente jorrar do seu pescoço antes de lhe sentir a dor e antes
de não conseguir respirar. Depois de o que lhe pareceu uma eternidade, perdeu os
sentidos, e não os voltou a ganhar.
Até.
Até.
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