quinta-feira, 5 de junho de 2014

Dama de copas e Ás de espadas

Pegou no baralho de cartas e baralhou, pela milionésima vez naquela noite. Fez quatro montes iguais, mais coisa menos coisa e tirou duas cartas dos seus topos com os olhos fechados. Repetiu o processo até faltarem duas cartas. Virou-as e lá estavam elas novamente. Dama de copas e Ás de espadas. Que raio quereria aquilo dizer? Maldita a hora em que aprendera a tirar as cartas. Quem lhe dera saber lê-las como o seu antigo mestre. Parecia simbolizar um coração partido, mas nunca era assim tão simples.  
Pegou noutro livro, mais antigo que o ultimo e folheou. Era provável que não encontrasse nada. Aquele método não era usado em sitio algum portanto não haveriam referencias aos seus resultados num livro, por mais antigo e poderoso que fosse. Levantou-se e jogou o baralho para o meio das chamas da lareira. O que quer que fosse que as cartas diziam sobre o futuro, não podia ser mudado de qualquer das maneiras. Foi até à casa de banho e lavou a cara. Voltou para a sala e sentou-se naquela grande poltrona com caveiras a ler o jornal e a beber mais um copo de whiskey.
Novamente, não encontrou nenhum trabalho que o pudesse satisfazer monetariamente. Há anos que não vivia dos seus conhecimentos de previsão, não é que errasse, mas no seu último trabalho cometera um erro que nunca mais se iria deixar voltar a cometer. E por causa disso, uma família inteira fora assassinada. Por sua causa. Não voltaria a tirar as cartas para ninguém.
Sentiu um fio gelado no pescoço e percebeu imediatamente do que se tratava. Bebeu mais um gole da sua bebida, quase aliviado por finalmente o terem encontrado.
– Com os cumprimentos da aranha ruiva – ouviu sussurrar no momento em que a adaga foi puxada firmemente.

Sempre pensara que seria indolor e rápido, mas ainda teve tempo de sentir o sangue quente jorrar do seu pescoço antes de lhe sentir a dor e antes de não conseguir respirar. Depois de o que lhe pareceu uma eternidade, perdeu os sentidos, e não os voltou a ganhar.

Até. 

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