O tempo passa
As borboletas voam com a imaginação
Os melros piam dos ramos das laranjeiras
E nós ficamos nas gaiolas de solidão.
Os desejos de um só dia morrem
E nascem os laços da vida.
Apertam-se e desapertam-se
Como todos os apertos no peito.
Nunca enfraquecem
Como bater de asas
Nunca desvanecem
Como os beijos da memória.
O tempo passa
A memória funde-se com a imaginação
Os sonhos nascem
E as borboletas voam acima das laranjeiras
Os melros piam de desejo.
O desejo que todos nós desejamos
Sem nunca sair da jaula de perdição
Até que nos perdemos no esquecimento
Levanto-me de manhã com a força dos sonhos
Escalo o penhasco com toda a força que me resta
Olho o horizonte e desejo
Salto e desvaneço.
O tempo congela
Partículas de gelo ficam presas no ar
As borboletas passam por mim
A voar sem hesitar
Os melros abandonam a segurança das folhas
Sobem rápido e alto
Juntam-se às borboletas
E ao meu fim.
As asas do tempo não param,
Não por mais que um momento.
A queda começa inevitável,
A entrada para o derradeiro esquecimento
Melros e borboletas rodopiam sem motivo.
A gaiola aproxima-se
Os sonhos dolorosos de nada valem
Desistir parece sempre mais fácil.
Uma luz brilhante acende-se
Uma lamparina de azeite incandescente
Arde pelo meio das chamas negras,
Aquelas chamas que sempre me preencheram.
Aproxima-se lentamente,
Num milésimo de segundo.
Fadinha mágica e brilhante,
Encantadora e apaixonante.
Todo o mundo brilha agora.
Ainda mais deslumbrante que a imaginação,
Paro de cair e percebo
Que beleza do universo reside ali.
Não quero voltar à jaula.
E não volto.
Olho em volta e vejo,
Finalmente.
Os melros e borboletas redopiam à nossa volta
Não que realmente já importem
Nada mais importa
As partículas de gelo juntam-se aos poucos
Formam as asas que sempre desejei
E agarro-me a elas com todas as forças,
Como ser encantado,
Batendo as asas resplandecentes.
Parei de cair.
A perdição ficou para trás.
O mundo gira á nossa volta,
Agora a história escreve-se sozinha.
Com asas cruzadas.
Até.
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