Sorriu ao olhar para aquele grupo coberto de escamas de
ferro. Não por estar feliz, embora estivesse, mas sim para mostrar os seus
estranhos caninos. Não era um vampiro, nem lobisomem, aparentemente essas
coisas apenas existiam em lendas e histórias. Era muito humano, embora sempre
tenha desejado não o ser.
Correu na direção dos seus inimigos, os últimos que tinha
pela frente. Saltou no último momento, que nem um gato a rodopiar pelo ar e
rasgou a jugular ao primeiro com os seus dentes. Adorava o sabor de sangue
ainda quente. A primeira estocada veio da esquerda, uma lança por entre as
costelas, fê-lo rosnar de uma forma bizarra. Arrancou a lança apenas com uma
mão e espetou-a no peito do seu agressor. Aquela dança de ferro e sangue era a
mais graciosa e bela das danças. Ali não havia falhas. Era viver ou morrer,
tudo nos seus pés, equilíbrio e balanço.
Lutava como uma fera e não como um homem. Balançava as suas
adagas como se de garras se tratassem e volta e meia mordia e pontapeava os
inimigos com tal força que os eliminava do combate. Quando os inimigos de pé
eram menos que as facas e pedaços de madeira espetados nas suas costas, braços
e pernas, a chuva chegou. Aquele momento pelo qual aguardara todos aqueles
anos, finalmente chegara, no fim é certo, mas pelo menos iria atravessar aquele
rio feliz.
Continuou a caminhar, agora mais devagar, desferiu golpes
onde quer que existisse movimento, cem metros e mais de meia centena de
cadáveres depois, começara a perder as forças. A chuva não era suficiente para
lhe lavar as feridas ou a alma. Atravessou a muralha, aquela gigante parede de
pedra que sempre objetivara atravessar e vira pela primeira vez o que se
encontrava além.
Não existia nada nem ninguém.
Não existia dor, sofrimento, ódio, amor, luz ou trevas.
Apenas o vazio puro de um paraíso perdido.
Correu na direção da luz, deixando um rastro de sangue e
armas de ferro e aço.
Paz, por fim chegou.
Até.
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