segunda-feira, 17 de março de 2014

Presságio nocturno

Dei mais uma volta na cama. As minhas costas estavam a matar-me e já há quase uma hora que tinha acordado desconfortável. Ainda não tinha aberto os olhos, nem uma única vez, nem sequer para matar a curiosidade de que horas seriam. Sabia que assim que abrisse os olhos estaria perdido, pois a partir daí sabia que não conseguiria mesmo voltar a adormecer, por mais que tentasse. Mas pelo menos de uma coisa sabia, ainda não amanhecera, tinha a certeza. Sentia-me muito mais cansado do que quando me tinha deitado, não compreendia porque tinha acordado, talvez fosse por estar com uma leve dificuldade em respirar, ou pelo desconforto das costas... De qualquer das formas, nas ultimas semanas tinha acordado a meio da noite com bastante regularidade, só que normalmente adormecia mais rapidamente.
Mais uma volta na cama, já tinha experimentado todas as posições possíveis e imaginárias e em nenhuma me conseguia sentir minimamente confortável. Talvez fosse por causa da pressão... Tanto a exterior como a interior, por um lado, sentia imensa pressão por todos os problemas que deixara acumular ao longo do tempo, por outro sentia que os meus órgãos estavam todos comprimidos uns contra os outros e todos contra as costelas. Deixei-me estar, virando-me de vez em quando tentando atingir uma posição em que conseguisse adormecer, mas nada. Depois do que me pareceu uma eternidade, embora suspeitasse que continuasse escuro lá fora, desisti.
Abri os olhos e fixei-me no tecto. Não queria ainda olhar para o telemóvel e ver as horas. Senti subitamente a minha cabeça latejar e todas as suas veias pulsar. Não era realmente uma dor, era uma pressão, algo desconfortável a um nível indescritível. Coloquei os dedos na testa e fiz um pouco de pressão para aliviar o mau estar. Normalmente resultava, esta madrugada aparentemente tudo estava do contra.
Levantei-me, sem acender qualquer luz, não queria piorar o desconforto. Talvez se fosse a casa de banho tudo melhorasse e eu conseguisse repor umas horas de sono. Como sempre digo, estou a dever imensas horas à minha cama, qualquer dia ela não me aceita mais. Assim que coloquei um pé no chão, senti o frio gélido do mosaico. Não era natural, era tudo menos natural. Estava um tempo abafado e de repente o frio era palpável no meu quarto. Assim que olhei em frente o gelo chegou-me ao peito e paralisei.
Aqueles olhos, eram simplesmente impossíveis. Aqueles olhos nitidamente cor de laranja com uma pupila vertical, eu já vira aqueles olhos antes. Fiquei a olhar para eles durante um tempo, não apenas porque eram belos e hipnotizastes, mas também porque me senti paralisado e por mais que tentasse, não conseguia dominar o meu corpo.
Ao primeiro raiar do dia, acordei. Estava exausto e tinha tido um sonho estranhíssimo. Aparentemente um mocho teria entrado no meu quarto, como se isso fosse possível. Levantei-me, vesti-me e quando estava a sair do meu quarto e olhei para trás, apenas para garantir que as minhas janelas estavam bem fechadas, uma pena cinzenta e castanha cai a planar ao lado do meu ombro esquerdo.
Não estava nada lá!
Não foi apenas um sonho.

Até.

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