terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Trevas

As trevas preencheram-no como água gelada preenche um copo vazio. O gelo no seu peito era doloroso, pelo menos no principio... Mas quando chegou, ou ultrapassou largamente segundo os padrões comuns da humanidade, ao limiar da sua sanidade mental, o gelo tornou-se reconfortante e as trevas viveram livremente em si.
Já não sabia quem fora, e mais importante que isso, já não se importava com isso. Deixara de se importar em tão pouco tempo que se confundia ainda com as queimaduras geladas que provocava à sua volta, mas rapidamente se lembrava com um sorriso.
A vida era tão mais agradável quando são apenas os outros que sentem o frio e as terríveis queimaduras gélidas, enquanto nada sentimos senão um leve prazer na dor alheia.
Mas então, quando tudo estava a correr terrivelmente bem e toda a vida deslizava por uma superfície cortante de gelo com toda a suavidade que se é possível imaginar, acendeu-se uma estrela calorosa.
Este calor quebrou o gelo duro e frio e estilhaçou-o antes de o começar a derreter, mas aos poucos, derreteu-o. E a água fria foi aquecendo, borbulhando apaixonadamente, fazendo-o esquecer as trevas, mesmo que por momentos. Não sentia frio, não por ser feito de gelo, mas por possuir uma estrela só sua.
Como era morna a vida quando se tinha uma estrela! Que nem eterna primavera florida! A felicidade era contagiante e parecia infinita. Então, subitamente, a estrela começou a afastar-se, aquela estrela que o mudara e lhe arrancara as trevas do seu âmago... Aquele calor que lhe roubara o gelo e o obrigara a verter toda a sua água...
Assim como veio, foi, deixando-o vazio, sem luz, sem calor, sem gelo e sem trevas, apenas vazio, apenas nada.
Agora sentia frio. O frio da solidão. Já não tinha gelo que o protegesse, nem estrela que o aquecesse. Só sentia frio, e os seu olhos escuros apenas viam as trevas, que prometera nunca voltar a abandonar...


Até.

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